O frio e o marlim

O inverno nos toma pelos pés, escala as pernas, sobe pelas coxas, cinge o pescoço, ruboriza o rosto. Mas, é bom vê-lo de novo. Mais impetuoso que em anos passados, é bem verdade. E fustigando os mesmos de sempre: os que congelam sob os viadutos, os que se vestem em mortalhas de papelão, os que madrugam em desespero olhando desolados os campos recobertos de gelo que faz o verde arder ao Sol. Baixas temperaturas que, vejam só!, também movimentam as agências de viagem, com a comercialização de milhares de pacotes turísticos, levando pequenas multidões em direção às regiões mais frias do Sul, alojando-as em chalés aquecidos, suítes com acomodações luxuosas, tendo os estômagos massageados por revigorantes foundues e vinhos selecionados, abraçados por roupas quentes, extasiados com elegantes passeios que desvendam paisagens encantadoras, cada minuto e pose armazenados na memória das câmeras de última geração.
Ah, frio, como acusá-lo de aquecer poucos e flagelar tantos? Fazes o que te cabe neste ciclo de estações programado pela mama natureza. Nada tens a ver com o sombrio do espírito humano, este sim a cada ano mais insolente, incapaz de cobrir, agasalhar ou ninar, a não ser quando premido por campanhas que mostram a solidariedade como um lembrete apenas circunstancial da nossa efêmera capacidade de sentir e compartir.
Cubro os olhos com o cobertor, afago o edredom, enlaço o travesseiro, de onde emana o perfume suave do amaciante. O vento cortante não me é a chibata que corta, dilacera a pele. Ainda assim, fere a alma, sangra o profundo, envergonhado lado avesso da faceta quase feliz, quase ajustada ao sistema – ainda que em evidente descompasso com ele – de um ser com validade quase vencida, que, quase consciente disso, persiste teimoso em não se entregar ao universo e dele ser não as escamas prateadas que cintilam, mas o peixe, um marlim valente que vende caro a liberdade.
Com vocês, meus amigos e amigas, o frio. O marlim, ou a resignação.

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