Sem senso, sem argumento…Você vai?

Início da noite de sexta-feira aqui em Rio Claro, região de Campinas. Cem, no máximo 150 pré-adolescentes, adolescentes e jovens se concentram no Jardim Público da cidade, ponto central, ao lado da Prefeitura. Gritam, entre outras coisas, que o prefeito é “arregão, não usa busão”. Pouco mais tarde, o carro de som que guia a galera toca “Gatinha Manhosa”, de Roberto Carlos, na sequência de uma seleção de suaves e ingênuas canções deste naipe. Minutos depois, a garotada toma o caminho do Terminal Urbano,a duas quadras dali,lado externo da antiga e centenária estação ferroviária. Os gatinhos manhosos, no entanto, assumem outra pelagem: agora já são tigres e tigresas de garras afiadas. Embora em número reduzido, eles bloqueiam os ônibus, impedindo que deixem o terminal. São 19 horas, se tanto. Há muitas pessoas querendo ir pra casa. A polícia tenta intervir. Mas, num tempo que o direito de se expressar é só de uns e quem destoa é apupado, os ônibus permanecem retidos. E, logo, em fila dupla,se amontoam na plataforma.A fila se estende a até mais de 200 metros dali. Todos com as luzes apagadas, sem motorista, cobrador, e – apenas num dos mais de 30 veículos estacionados – meia dúzia de passageiros,que olham desanimados pelas janelas semiabertas. Gente que não tem opção a não ser esperar pela boa vontade ou cansaço dos manifestantes. Será, contudo, uma espera em vão.
São quase 20 horas. A meninada forma grupinhos de quatro, cinco pessoas e se senta no meio da rua. Outros, transformam a via pública em pista de skate e fazem suas manobras. Apesar da situação, o clima é calmo, muito calmo. Policiais, quase no mesmo número que os manifestantes, também conversam em pequenos grupos. Ao que tudo indica, os ônibus não circularão mais hoje. Os usuários não contam, que se virem, que peguem carona ou sigam a pé pra casa. Faz tempo que os manifestantes se esqueceram deles, deixaram de ser o centro dos protestos.
Volto atrás quase uma década, época em que o então deputado Severino Cavalcanti, um ex-udenista, eleito presidente da Câmara, brandia mais um polpudo reajuste de salário para seus pares. Chamei os amigos mais próximos, levei minha mãe de 80 anos (e com Alzheimer avançado, pois não tinha com quem deixá-la), encomendamos uma faixa grande denunciando o reajuste, nos armamos de apitos e fomos à principal via comercial de Maringá, na manhã de um sábado. Éramos, ao todo, 10 pessoas. Seguimos pela calçada, sem atrapalhar o trânsito. Na caminhada, recebemos mais vaias do que aprovação das centenas de pessoas que faziam compras àquela hora. Fomos em frente, até o fim. Severino e os deputados não nos deram bola, ficaram eles com a vergonhosa bolada.
Tenho de reconhecer que os tempos eram outros. Tínhamos então um Brasil próspero herdado de dois mandatos de FHC, que privatizava os bancos estatais, que vinha de sucatear as nossas ferrovias, de passar a Vale nos cobres, da dúvida externa monstruosa, da dependência ilimitada ao FMI e Banco Mundial, da submissão absoluta aos Estados Unidos e União Européia, do “mensalão tucano”, que deu de bandeja a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e que, ainda hoje, permanece sem julgamento no STF. Aliás, FHC, DEM e PPS já se manifestam, agora, sob os holofotes da Globo e aplausos das “ruas”, contra a reeleição, visto que querem – e precisam, como nunca – colocar a presidente Dilma fora da disputa em 2014, acabar com o governos trabalhistas.
É fato. O tempos são outros e bem diferentes daqueles em que Severino dava as cartas no Congresso Nacional. Afinal, que negócio é este de receber a Copa, a Olimpíada? De reformar, ampliar e construir novos aeroportos? De querer um mínimo de soberania para o País na exploração do Pré-Sal e defender que os royalties do petróleo devem ir para a Educação? Que doença é essa de tirar milhões de pessoas da miséria, de Bolsa Família, Prouni, de mandar brasileiro para estudar com bolsa no exterior? Que estupidez é essa de fazer casa sem parar pra pobre, dois milhões delas até final de 2014??? E a indústrias naval a pleno vapor, pra quê? E as novas ferrovias, as hidrelétricas, termoelétricas, os investimentos em energia eólica, em tecnologia, na construção de centenas de escolas técnicas, de universidades?
Já não se faz um Brasil como o de antigamente, das eras FHC, Collor, Sarney e mais para trás, sob a batuta dos militares. Querer regulamentação da mídia, como determina a Constituição de 1988? Papo de comunista. E o Big Brother que está nas ruas, como ficaria?
Crianças, meus respeitos. Mas, em grande parte, só a Super Nanny pra dar jeito em vocês. O Brasil e, essencialmente, uma grande parte dos políticos, os banqueiros, os empresários mafiosos, os oportunistas e corruptos, precisam sim de freios. Mas a democracia com maturidade, responsabilidade e forte apoio popular não pode ser descartada. É essencial, fundamental, imprescindível, sagrada. Só não se pode perder o fio da meada, deeixar de conhecer e entender com clareza as linhas que redigiram nossa história. A leviandade, a desinformação, o sem senso, sem noção, sem argumento de agora só levam ao caos. Avante e na luta, mas pelo fortalecimento da democracia e de quem, de fato, se doa por ela.

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