Uma afronta que só fará nos unir ainda mais

Um mínimo de sanidade que se tenha e um mínimo de conhecimento sobre a história recente do Paraguai são mais do que suficientes para classificar de golpe o impeachment do presidente Fernando Lugo, eleito democraticamente, que encerraria seu mandato em agosto de 2013, cerca de três meses após o pleito (abril de 2013) que elegeria seu sucessor, visto que a Constituição paraguaia não permite a reeleição para o cargo.  

Enquanto os vizinhos do Mercosul e da Unasul recebiam com justificada desconfiança a autêntica presepada promovida pelo Senado do Paraguai, países como os Estados Unidos, Canadá, até a endividada Espanha e outros membros da zona do euro já, de pronto, compraram a versão falsificada de “legalidade” propalada pela maioria política paraguaia. O Vaticano não deixou por menos: levantou a batina e deu o aval cristão aos golpistas, enquanto o núncio apostólico do Paraguai posava sorridente ao lado do Federico Franco, o vice-presidente que substituiu Lugo.

Dizer que Franco foi surpreendido com a “agilidade” do processo de cartas marcadas, como se quer fazer crer aps incautos, é piada, engodo.  O rito sumário a que foi submetido Lugo, sem direito à defesa, e o que se viu imediatamente em seguida, com a posse do vice, mostrou que tudo foi articulado e planejado cuidadosamente. A decisão da instância suprema da justiça do Paraguai, de não dar guarida aos recursos de Lugo, alegando que nada poderia ser feito após o declaração de impeachment, só confirma a teia que se armou para encerrar o caso num piscar d”olhos e dar aspecto de legalidade ao golpe. 

O que virá a seguir, da parte da OEA, Unasul e Mercosul, além das posições que essas entidades já tomaram – cautelosamente, é verdade – vai dizer a quantas anda, de fato, o compromisso dos países da AL com a democracia. Chile e Colômbia tendem a ficar numa posição menos crítica, já que ambos sustentam uma ligação muito próxima com a Casa Branca, tanto quanto as forças da extrema direita paraguaia que depuseram Lugo. Chavez, principalmente, Raul Castro e Morales, como já demonstraram, não se intimidarão, e serão os porta-vozes da AL progressista na condenação do golpe. Cristina também não é de dourar a pílula, mas o Brasil de Dilma, no entanto, peça-chave neste contexto, terá de engrossar a voz, mesmo considerando os interesses de mais de 400 mil (e muitos são latifundiários) brasiguaios que apoiaram o golpe e os interesses expressos  na binacional Itaipu.

Este modelo “constitucional” de golpe adotado no Paraguai já é velho conhecido dos países da AL que, em anos ainda recentes, começaram a se afastar da corrente neoliberal, ensaindo governos de vertente mais socialista, que têm, sem dúvida, restituído esperança aos nossos povos, praticando justiça social, combatendo a exclusão, a miséria e a centenária e irresponsável exploração de suas riquezas pelo capitalismo sem fronteiras, eterno aliado das elites nativas. Será um duro teste. Só não vale esmorecer. E, certamente, não serão poucos os paraguaios que se irmanarão conosco, povos deste adorado Sul da América, na tarefa de entoar alto o nosso apreço incondicional pela democracia e liberdade.

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: