O real e o que é “plantado” como real

Não recordo o nome que se dá a isso, o de se criar uma notícia sem fonte, fato, local, data. Inventa-se o fato, preferencialmente polêmico, desses que o gosto popular – ensinado pela mídia – aprecia ver ou ouvir. Então, é só mandar bala. Não é incomum essa prática, por absurda que possa parecer. Já testemunhei “redator” de rádio interiorana queimando os miolos pra produzir uma safadeza dessas. Em geral, situa-se o caso num outro estado, bem longe, forjam-se nomes (em geral, bem comuns), com a certeza de que ninguém vai pesquisar para verificar se a notícia procede ou não. No mais das vezes, recorre-se a estupros, assassinatos violentos. No entanto, questões políticas também podem entrar na “pauta”. Claro que com a presença cada vez maior da internet, os riscos de utilizar essa prática aumentaram muito. Mas, em locais em que o rádio ainda domina a audiência e a internet passa distante, não é improvável dar de cara com esse “recurso”.

Na verdade, nossa grande mídia deu uma roupagem nova a essa prática e se vale, diariamente, do mesmo expediente para tentar criar “fatos”. Entrevistas atribuídas a fontes não identificadas, que dão a impressão de representar a opinião de toda uma instituição ou corporação, tipo “uma fonte ligada ao alto comando das Forças Armadas” ou, por exemplo, “um ex-funcionário da Câmara dos Deputados” ou, “moradores da Rocinha, agora, estão preocupados com a ação da polícia na favela” podem perfeitamente não estar associados à fonte alguma, não ter origem, serem inverídicas. Existirá a tal alta fonte militar? O ex-funcionário não é um “fantasma”? Quantos e quem são os moradores da Rocinha que entre os traficantes e a polícia, estão assombrados de medo dos milicos?

No entanto, puxado o gatilho, detonada a carga de mentiras e suposições, esses procedimentos repugnantes de  certa parte da imprensa permitem que o veículo emissor da “informação” atinja seu intento, qualquer que seja, não importa se para ameaçar, para amedrontar, ou, sejamos mais diretos, para transformar  uma mentira em fato real. Tudo bem que o jornalista tem a prerrogativa de omitir sua fonte, o que parece razoável quando se quer denunciar algo e, evidentemente, não se pode expor o denunciante, até para preservar sua integridade física. A coisa, contudo, piora quando se sabe que o direito de resposta do ofendido, humilhado, ultrajado e difamado não ocorre mais de pronto, como deveria, mas fica entregue ao humor da Justiça, aguardando semanas, meses e até anos para ser apreciado por um juiz, saltando de instância em instância, naquele trote lento, quase parando, que todos nós brasileiros já conhecemos de sobra. E no momento em que se consegue o direito de defesa, a ”mentira” já se tornou verdade.

Observem, por exemplo, o que colunistas de jornais, dos mais famosos aos mais desconhecidos, costumam fazer sempre que alguém se preste a lhes “molhar” as mãos. Emitem “notinhas” sem pé nem cabeça, com ameaças vagas, todas com alvo fixo, embora o leitor comum nem imagine que interesses podem estar embutidos ali. Mas é exatamente assim que esses colunistas agem, operados por empresários, políticos, a serviço de quem paga mais. É o que, em jornalismo, chamamos de “plantar” notícias. Dizer que alguém é bem cotado para determinado cargo, quando o nome do dito cujo sequer foi ventilado, ou distribuir fotos do “protegido” nas colunas sociais e notas, sempre projetando o nome para muito além do que o sujeito, de fato, é.

É fácil ser enganado. Ainda mais quando colaboramos com o enganador, confiando plenamente em tudo que recebemos dele, sem nenhum resquício de dúvida ou curiosidade de tirar a limpo o que se lê ou ouve…

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