Guerra e humilhação no esporte

Coliseu, em Roma

Vem de longe a “cultura” de transformar competições esportivas em batalhas de guerra, inclusive recorrendo ao linguajar típico para descreve-las. Já viram exemplos disso. Fala-se em míssil,  petardo ou bomba ao invés de um chute potente a gol, diz-se que o técnico montou uma escaramuça pra surpreender o time rival, que a equipe tem uma estratégia para anular a defesa do adversário, que o ataque foi arrasador, fulminante e até mesmo a forma como a televisão mostra como será a disposição dos jogadores em campo ou na quadra, lembrando um tabuleiro de xadrez não deixa de opor dois exercítos. A imprensa carrega os canhões para lembrar que se já não damos cristãos de comer aos leões ou urramos diante de gladiadores decapitados, espetados por lanças ou trespassados por espadas, “civilizamos” estes shows, mas continuamos reafirmando a paixão pela violência. Clássicos do futebol, do vôlei, basquete, boxe e de quaisquer outros esportes são costumeiramente tratados como batalhas, predispondo ao confronto “bélico” os exércitos em quadra, nos gramados e arquibancadas. Numa das Copas que se seguiu à guerra das Malvinas, a imprensa mundial remeteu a partida entre ingleses e argentinos ao clima de revanche, para os portenhos, ou de confirmação da supremacia militar, para os ingleses.

A coisa, no entanto, está rompendo a barreira do tolerável, se é que se pode falar em alguma graduação neste aspecto, do incentivo explícito à violência. Veja-se a o que aconteceu na defesa do cinturão pelo brasileiro Anderson Silva no UFC 117, dia 7, em Las Vegas. O desafiante Chael Sonnen, dos EUA, dera várias declarações nos dias anteriores à luta, primeiro ofendendo o Brasil (disse que aqui não se pode descuidar, porque roubamos carteiras) e prometeu “acabar, humilhar, surrar” o adversário brasileiro. Na verdade, Sonnen fez isso no octagon até os dois minutos finais do quinto e último round, quando Silva teve uma reação inesperada e aplicou-lhe um golpe que definiu a luta.

Nos últimos dias, a cobertura que o  UOL/Folha está fazendo do Grand Prix feminino de vôlei (nesta semana disputado em Macao) e do Sul-Americano de Basquete feminino, no Chile, evidencia que o esporte rendeu-se à guerra e ao desrespeito pelos atletas e os países que estes representam.  Eis algumas das manchetes publicadas:

“Brasil humilha Venezuela” e “Brasil arrasa Colômbia” (basquete) ou “Brasil atropela República Dominicana” (vôlei). Como se vê, além dos atletas, os humilhados ou arrasados são também os países, seus povos. Incrível.

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