Uma cidade cultural

Vice-presidente, Astori, em entrevista à televisão pública uruguaia

Montevidéu se apresenta como Cidade da Cultura. E tem boas razões para isso. Há ótimas livrarias, dezenas de espetáculos teatrais em cartaz, muitos cinemas, shows.

Os autores uruguaios predominam na litais livrarias, palcos e salas de cinema. Além disso, há um canal de tevê de excepcional qualidade na retaguarda. Trata-se da TV Nacional de Uruguai, que é pública e tem grande audiência. A programação é diversificada, há bons programas jornalísticos, de variedades e entrevistas, infantis. A arte cinematográfica, a literatura, a música local e todas as demais manifestações artísticas e culturais ganham espaço nobre na telinha.

Num dos programas que vi, lá estava o escritor Eduardo Galeano. Simpático, agradável, sóbrio e sensato nas análises, ele discorreu sobre a latinidade, a integração dos países latino-americanos que tanto demora a se materializar. Lamentou a declassificação precoce de Brasil e Argentina nas quartas-de-final da Copa e também se emocionou com o desempenho da seleção uruguaia  e com a impressionante repercussão que a campanha da Celeste teve no ânimo dos uruguaios.  Lamentou, contudo, o comportamento vulgar da imprensa brasileira ao celebrar a derrota argentina e, horas depois, com o troco, dado no mesmo nível, pelos argentinos em relação à desclassicação do Brasil. “É uma insensatez, falta de amor”, criticou.

De qualquer forma, o incentivo à cultura no Uruguai é notável. Os ônibus urbanos trazem os filmes uruguaios que estão em cartaz ou anunciam os que serão lançados em grandes painéis  expostos nos vidros traseiros. Tapumes de obras também reproduzem as próximas estréias.  Não bastasse, e o governo também tratou de isentar de impostos os CDs de cantores e compositores locais, o que torna seus preços muito atrativos se comparados com os dos importados, que continuam taxados.  

Tango e candombe (que recorre aos tradicionais tambores) encantam os ouvidos uruguaios, mas ídolos pops e teens da parte norte do continente impregnam a alma da garotada e dos adolecentes locais, que falam a linguagerm dos piercings e dos cabelos eriçados com gel, desfilando a rebeldia que parece não variar com as latitudes e longitudes do planeta. 

Se a cultura é valorizada, a política também é rastreada atentamente pelos uruguaios, que vêm na figura do presidente Mujica uma nova perspectiva de futuro para o país. “Ele vai se voltar para os mais pobres, fará um governo centrado no social”, disseram-me dois comerciantes e um taxista que levou do aeroporto ao hotel. 

O presidente é um homem do povo, como Lula, de Brasil, dizem os esperançosos uruguaios. Mujica, ao contrário de seu antecessor, o ex-presidente Tabaré, que embora de esquerda vem de família de posses e nunca foi preso durante a ditadura militar, parece mesmo incorporar o figurino popular. É um homem simples, rejeita terno e gravata (que também não permite aos seus ministros e assessores), caminha pelas ruas sem escolta de seguranças e não se desfaz de seu velho fusca. “Quando tomou posse, há poucos meses, queriam lhe dar um carro novo, mas ele não aceitou, é fiel às suas origens”, explicou-me Vitor, um artesão de 46 anos. 

Mujica, aliás, foi pessoalmente ao Aeroporto de Carrasco,  às 22h30 da segunda-feira, 12, receber o “Maestro” Oscar Tabárez e a seleção uruguaia. Já septagenário, com os cabelos grisalhos despenteados e aquecido apenas por um velho e surrado casaco, ele abraçou cada um dos jogadores e os agradeceu pela alegria que os guerreiros da Celeste proporcionaram ao povo do país. Mujica detesta qualquer tipo de ostentação, fala só o essencial, mantém a voz baixa e o tom amável, ignora o protocolo. Seu vice, Astori, segue o mesmo padrão.

A propósito, ao ser entrevistado na véspera da chegada da seleção num programa de esportes da televisão pública, o vice-presidente me supreendeu com uma declaração em que justificava a bela campanha da Celeste na Copa. Disse que os jogadores mostraram dentro de campo e ao mundo, na África do Sul, que receberam do treinador, o “Maestro Tabárez”, muito “mais que técnicas e estratégias” de jogo. “Eles incorporaram os valores humanos, os princípios de honra, humildade, arrojo e valentia repassados pacientemente pelo Maestro”,  explicou ao repórter.

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