Igualdade além do discurso…

Não gostamos de qualquer coisa que nos torne “iguais”, a não ser em discursos, no plano teórico.  O verbo é o que nos expõe e não precisa, entendemos assim, estar conectado com o que fazemos, com a forma de agirmos. Então, cuidamos razoavelmente bem do que dizemos e não paramos para uma espiadela na prática. Se o fizermos, como o pecador que procura penitenciar-se regularmente de suas faltas ou o cientista que não reluta em retomar do zero seus experimentos, nos concederemos o hábito de confrontar a teoria e a prática e teremos – no mais das vezes – que admitir um distanciamento enorme entre o que professamos e o que, de fato, realizamos.

Hoje, celebramos a diversidade, a diferença. O não termos de ser iguais aos outros e, mesmo assim, sermos essencialmente iguais no sentido de que somos humanos, finitos. Não é a quem beijamos que importa.  Não é de onde viemos o que conta. Também não é a fé que nos deve distinguir, nem a cultura. É essa a fantasia que vestimos neste início de século, de um novo milênio. Mas, somos, a despeito de tudo, desigualmente iguais.

O mito da teoria e prática vem abaixo quando, à entrada de um teatro, de um bom restaurante ou à frente de um hospital renomado pisamos firmes e seguros de nossas posses, enquanto um catador de papel nos espreita, da rua, testando entender que estranha igualdade é essa que nos classifica por aromas, roupas, celulares, carros e endereços. Ele, o catador, silencia em sua resignação, enquanto nós silenciamos nossas consciências.

Somos especialistas em dissecar as mazelas da sociedade que nos abriga e nos devora. Temos intérpretes perfeitos do nosso tempo, capazes de verter em números ou em teses robustas nossas diferenças. Também não faltam diagnósticos sensatos ou pretensamente sensatos, vozes que clareiam o túnel, enfrentando a escuridão. Mas, cadê o ímpeto, a vitalidade, a vontade de comprimir e achatar a pirâmide, aproximando o primeiro e o último degrau desta escala de valores inescrupulosa?  

Não detenho a verdade. Longe disso. Mas preciso crer, e crer sempre mais, que sonhar a utopia é licito. E a minha utopia, neste momento, tem um nome. Um nome feminino. Um nome que me leva aos cerrados do Centro-Oeste, aos pampas gaúchos, ao sertão nordestino, às entranhas da Amazônia, à Mata Atlântica, ao barroco mineiro, às favelas cariocas, aos quilombos, aos vales do Ribeira e do Jequitinhonha, aos jazigos de Jango, Brizola, Arraes, Henfil, Betinho, Antonio Conselheiro e ao encontro dos irmãos sul-americanos e africanos, preferencialmente.

Que venha a utopia. Que venha Dilma.

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